Chile de Norte a Sul: uma viagem de motorhome pelas rotas do vinho
Dessa vez, decidimos conhecer o Chile de um jeito diferente. A ideia era percorrer o país de norte a sul, passando por algumas de suas principais regiões vinícolas e conhecendo projetos que mostrassem diferentes faces do vinho chileno.
E, para deixar a viagem ainda mais especial, trocamos hotéis por uma casa sobre rodas.
Assim que chegamos ao Chile, retiramos nosso motorhome em Santiago, e começamos oficialmente nossa aventura pelas estradas chilenas.
Escolher viajar de motorhome fez toda a diferença nesse roteiro. Ter a liberdade de seguir pela estrada no nosso próprio ritmo, parar quando quiséssemos e acordar cercados por algumas das paisagens mais bonitas do país acabou fazendo parte da experiência tanto quanto as próprias vinícolas.
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Primeira parada: Clos des Fous
E começamos com um projeto que já pelo nome deixa claro que não estamos falando de uma vinícola convencional.
Clos des Fous — algo como “vinhedo dos loucos” — nasceu da vontade de fazer um vinho chileno diferente, fugindo da produção em grande escala e procurando lugares, solos e climas capazes de imprimir sua identidade nos vinhos. O projeto aposta em diferentes terroirs do Chile, em pequena escala e com mínima intervenção.
E uma das melhores formas de entender essa filosofia é justamente conhecer Pucalán, na região de Puchuncaví, próximo ao litoral do Pacífico.
Ali, na zona de Aconcagua Costa, a influência marítima ajuda a trazer frescor ao clima. O vinhedo de Pucalán está plantado sobre solos antiquíssimos, originados de depósitos de areia marinha que, ao longo de milhões de anos, se transformaram em rocha. É nesse terroir que a Clos des Fous cultiva Pinot Noir, uma das variedades que melhor traduz a personalidade desse lugar.
E foi justamente ali que nossa experiência começou: nos vinhedos de Puchuncaví.
Foi onde conhecemos aquela charmosa casa rústica, com paredes em tons terrosos, pedras e um enorme telhado de palha, completamente integrada à paisagem. Nada de uma sala de degustação formal ou cheia de cerimônias. Sentamos, abrimos os primeiros vinhos e começamos a entender um pouco melhor a filosofia da Clos des Fous.
Entre uma taça e outra, chegaram também deliciosas empanadas chilenas. E foi assim, de maneira simples e descontraída, cercados pelos vinhedos, que começamos nossa primeira experiência vínica dessa viagem.
Mas a visita estava longe de terminar.
Depois dos vinhedos de Puchuncaví, seguimos para Zapallar, no litoral chileno, onde fica a espetacular casa de praia de Paco Leyton, um dos fundadores e enólogo da Clos des Fous.
E quando digo espetacular, não é exagero. A casa tem o mar como protagonista e praticamente todos os cômodos têm vista para a praia. Depois de um dia entre vinhedos e taças de vinho, ainda aproveitamos a piscina enquanto o Pacífico fazia parte do cenário.
Paco foi para a cozinha e preparou mariscos para nós, continuamos abrindo e degustando outros vinhos e, no final da tarde, assistimos a um pôr do sol incrível sobre o mar.
A noite seguiu com churrasco, muitas conversas, mais algumas garrafas abertas e terminou da melhor maneira possível: com música e cantoria comandada pela esposa de Paco.
Foi uma daquelas experiências que explicam perfeitamente por que conhecer um vinho no lugar onde ele nasce — e ao lado de quem o produz — é tão diferente de simplesmente abrir a mesma garrafa em casa.
Mais do que provar os vinhos da Clos des Fous, conhecemos as pessoas, os lugares e um pouco da história que existe por trás de cada garrafa.
E assim, entre vinhedos, empanadas, mariscos, um pôr do sol inesquecível no Pacífico e muitas taças de vinho, começava nossa aventura de motorhome pelas vinícolas do Chile.
E essa era apenas a nossa primeira parada.
Segunda parada: Viña Errázuriz — quando cada detalhe faz parte da experiência
Depois da experiência incrível com a Clos des Fous, seguimos viagem com nosso motorhome rumo ao Vale do Aconcágua, cerca de 100 quilômetros ao norte de Santiago. Nossa próxima parada seria a Viña Errázuriz.
Cercado pela Cordilheira e tendo o imponente Monte Aconcágua como uma de suas grandes referências, o vale combina dias ensolarados com a influência das brisas frias que chegam do Oceano Pacífico, criando condições muito particulares para a produção de vinhos.
E foi justamente aqui que, em 1870, Don Maximiano Errázuriz decidiu fundar sua vinícola.
Na época, enquanto grande parte dos vinhedos chilenos estava concentrada nos arredores de Santiago, Don Maximiano enxergou o potencial das terras mais ao norte e escolheu o Vale do Aconcágua para plantar seus vinhedos.
Mais de 150 anos depois, a Errázuriz continua ligada à família e possui vinhedos que se estendem do interior do vale até áreas próximas ao Pacífico. Essa diversidade de terroirs permite trabalhar diferentes variedades e estilos de vinho.
E foi nesse cenário, onde história e modernidade convivem lado a lado, que começamos nossa visita.
Se na Clos des Fous fomos conquistados pela informalidade e pela proximidade com as pessoas por trás dos vinhos, na Errázuriz encontramos uma experiência completamente diferente — marcada por um cuidado quase milimétrico com cada detalhe.
Desde a chegada, o atendimento foi impecável. E isso ficou claro antes mesmo de entrarmos na vinícola.
Na nossa chegada, a bandeira do Brasil estava hasteada para nos receber. Um gesto simples, mas que imediatamente nos fez perceber que aquela não seria apenas mais uma visita.
A partir dali, os detalhes foram se sucedendo: materiais informativos preparados especialmente para nós, com nossos nomes, uma recepção extremamente cuidadosa e uma visita completa pela vinícola já davam uma ideia do que viria pela frente.
Percorremos seus espaços conhecendo um pouco da história, da produção e da importância da Errázuriz para o vinho chileno até chegarmos a um dos momentos mais esperados: a degustação na belíssima Sala de Vidros.
E não era qualquer degustação.
Na taça, alguns dos grandes vinhos da casa: KAI, La Cumbre, Villa Don Maximiano e Don Maximiano 2022, sempre acompanhados de pequenos petiscos pensados para completar a experiência.
O último deles carrega no próprio nome parte da história que acabávamos de conhecer: Don Maximiano Founder’s Reserve é o vinho emblemático da Errázuriz e uma homenagem ao homem que fundou a vinícola naquele mesmo vale em 1870.
Mas a Errázuriz ainda tinha muito mais preparado para nós.
De lá, seguimos para o Mirador. E, mais uma vez, chegamos e tudo estava pronto nos mínimos detalhes.
No alto, com uma vista maravilhosa do entorno, fomos recebidos com uma taça de Chardonnay e uma deliciosa tábua de frios, frutas e oleaginosas. Um daqueles momentos em que dá vontade de esquecer o relógio e simplesmente ficar ali.
E então chegou a hora do almoço.
Talvez tenha sido nesse momento que percebemos definitivamente o nível de cuidado que existe por trás da experiência da Errázuriz.
Assim que entramos na sala, no timing perfeito da nossa chegada, surgiu uma garçonete com uma garrafa de espumante nas mãos, pronta para nos oferecer uma taça.
Parecia coreografado.
Nada acontecia por acaso. O momento de servir, a apresentação, a sequência dos vinhos, a comida, a mesa. Tudo parecia ter sido pensado e executado nos mínimos detalhes.
O almoço foi impecável e, claro, harmonizado com os vinhos da casa. Sobre a mesa, mais uma surpresa: um menu personalizado com nossos nomes, preparado especialmente para aquele momento.
Pode parecer apenas um detalhe. Mas são justamente esses detalhes que transformam uma boa visita em uma experiência memorável.
A Errázuriz tem grandes vinhos, uma vinícola belíssima e mais de 150 anos de história para contar. Mas o que ficou marcado para nós foi também a maneira como tudo é apresentado.
Do papel com nossos nomes na chegada à taça de espumante servida no momento exato em que entramos para o almoço, havia uma atenção quase obsessiva à experiência do visitante.
E isso faz toda a diferença.
Saímos de lá impressionados não apenas com o que estava dentro das taças, mas com todo o cuidado colocado ao redor delas.
E ainda não tínhamos terminado nosso dia no Vale do Aconcágua.
Nossa próxima parada seria um dos projetos mais emblemáticos do vinho chileno: Seña.
Seña — um ícone chileno no Vale do Aconcágua
Depois de uma experiência impecável na Errázuriz, seguimos para nossa próxima parada ainda no Vale do Aconcágua: Seña.
E antes de contar como foi nossa visita, vale entender por que esse nome ocupa um lugar tão importante na história recente do vinho chileno.
O Seña nasceu em 1995, de uma parceria entre o chileno Eduardo Chadwick e o americano Robert Mondavi, dois nomes que compartilhavam um sonho bastante ambicioso: produzir no Chile um vinho capaz de estar entre os grandes vinhos do mundo.
Inspirado nos grandes blends de Bordeaux, mas com uma identidade essencialmente chilena — marcada inclusive pela presença da Carménère — o Seña se tornou um marco na busca pelo reconhecimento internacional dos vinhos premium do país.
E essa história ganhou um capítulo decisivo alguns anos depois.
Em 2004, Eduardo Chadwick organizou em Berlim uma degustação às cegas que entraria para a história do vinho chileno. Grandes especialistas internacionais provaram, sem saber quais rótulos estavam em suas taças, alguns dos melhores vinhos do Chile lado a lado com ícones de Bordeaux e da Toscana.
O resultado surpreendeu o mundo do vinho: Viñedo Chadwick 2000 ficou em primeiro lugar e Seña 2001 em segundo, à frente de alguns dos rótulos mais consagrados e caros do mundo.
O evento ficou conhecido como Berlin Tasting e se tornou um marco para o vinho chileno. Mais do que provar que aqueles vinhos poderiam competir em uma degustação com grandes nomes internacionais, ajudou a mudar a percepção sobre o potencial do Chile para produzir vinhos de altíssima qualidade.
Era, de certa forma, a confirmação daquele sonho que Eduardo Chadwick e Robert Mondavi haviam iniciado anos antes.
E conhecer o Seña depois de saber dessa história torna a experiência ainda mais interessante.
Seu vinhedo fica em Ocoa, no Vale do Aconcágua, a cerca de 40 quilômetros do Oceano Pacífico. São 42 hectares em encostas, com solos pedregosos de diferentes origens e um clima mediterrâneo influenciado pelo efeito refrescante da Corrente de Humboldt.
E há outro aspecto fundamental na filosofia do projeto: o vinhedo é conduzido segundo princípios da agricultura biodinâmica.
Foi justamente essa relação com a natureza uma das primeiras coisas que chamou nossa atenção por lá.
Quem nos recebeu foi Alejandra, filha de Eduardo Chadwick. E nosso primeiro encontro com ela não poderia ter tido um cenário mais apropriado.
Estávamos saindo do carro e começando a conversar quando, de repente, passou diante de nós um rebanho de ovelhas sendo conduzido por um trator.
Paramos para assistir à cena. Além de inesperada e muito divertida, ela parecia uma introdução perfeita ao que conheceríamos logo depois sobre a maneira como o vinhedo é manejado.
Durante a visita, percorremos a propriedade e conhecemos melhor o projeto biodinâmico do Seña, entendendo como essa filosofia procura enxergar o vinhedo como um ecossistema integrado e reduzir ao máximo a dependência de intervenções externas.
Depois seguimos para o Mirador.
E ali encontramos novamente o mesmo cuidado com os detalhes que já havia nos impressionado tanto na Errázuriz.
Fomos recebidos com uma taça de espumante e uma vista espetacular do Vale do Aconcágua. Era o início de mais uma experiência preparada nos mínimos detalhes.
Em seguida, fomos para o jantar.
Mais uma vez, tudo estava personalizado: mesa impecavelmente preparada, cardápios com nossos nomes e um menu especialmente pensado para acompanhar os vinhos.
Mas dessa vez havia algo ainda mais especial nas taças.
Nosso jantar seria acompanhado por uma degustação vertical de Seña, com as safras 2017, 2021 e 2022.
